45 Vestidos

27/09/2009 por mterenzi

Escrevo este post à uma hora da madrugada de um sábado para domingo. Não, não posso ir dormir agora. Minha filha caçula irá me ligar a qualquer momento, entre as duas e as cinco da madrugada, para que eu vá buscá-la numa festa de 15 anos de uma colega de escola.

Eu nunca tive dúvidas de que no ano em que sua filha completa 15 anos, as despesas aumentariam. Mas achava que era por causa da eventual festa que teria que oferecer. Eu estava errado. Minhas filhas não quiseram festas.

A mais velha trocou de bom grado a sua festa pelo direito de assistir ao vivo o show do U2 no estádio do Morumbi, em São Paulo. Lá fui eu junto, sentado na arqubancada por cerca de 14 horas para assistir a um espetáculo que passou ao vivo pela televisão, onde era possível, inclusive, ver o Bono Vox. E no final ela ainda ficou brava comigo porque eu sentava de vez em quando durante a apresentação.

A mais nova optou por uma viagem para a Disney.

Mas eu não sabia que o problema maior era outro…

No ano em que a sua filha faz 15 anos, também fazem 15 anos suas 45 colegas de sala. Assim, são 45 festas. São 45 madrugadas de sábado para domingo sem dormir. E são 45 vestidos diferentes para comprar. Porque, aparentemente, as meninas, já a partir desta idade, desenvolvem uma memória absurdamente gigantesca e são capazes de dizer, no meio das 300 meninas convidadas para a festa, se uma delas está repetindo um vestido usado em outra oportunidade.

Assim crescem as nossas mulheres…

Mulheres do Brasil, falando sério, vocês nunca pensaram em fazer um acordo entre vocês?

Todos seriam mais felizes, principalmente nós, pais. Talvez a única exceção fosse mesmo as lojas de vestidos caros…

Um, nenhum, cem mil

27/09/2009 por mterenzi

Um sujeito, a partir da observação distraída de sua esposa de que o seu nariz pendia ligeiramente para a esquerda, começa  a elaborar um raciocínio que mudaria completamente a sua vida.

Ele, que sempre achou que era apenas uma e a mesma pessoa, percebe que o que ele é para si mesmo é muito diferente daquilo que ele é, por exemplo, para a sua esposa. E para cada uma das outras pessoas que o conhece.

A partir dessa constatação, ele, que se achava um, descobre-se cem mil e, ao final, talvez não seja nenhum. Começa a empreender, então, uma tarefa insólita: desconstruir, um a um, estes cem mil diferentes sujeitos que ele era ao mesmo tempo.

Este é o tema de um livro que acabei de ler, de Luigi Pirandello, um dos maiores escritores italianos, cujo título é o mesmo deste post.

Recomendo muito.

Segundo Pirandello, quando nos conhecemos, imediatamente matamos alguma coisa em nós. Conhecer é destruir.

(…)

Mas o que a gente coloca no lugar daquilo que acabamos de destruir em nós?

Desejo

03/09/2009 por mterenzi

Por trás de todo grande vazio existe um grande desejo?

Então, por que o medo?

Idades

03/09/2009 por mterenzi

É uma questão cultural, claro, mas nem por isso deve ser subestimada.

As mulheres parecem começar a se preocupar com a idade quando chegam (ou se aproximam) dos 30 anos, mesmo com todas as considerações positivas de Balzac. Tornam-se, então, balzaquianas.

Já os homens enfrentam esta questão quando chegam aos 40.

Até chegar aos 40 anos eu, sinceramente, não sabia a minha idade assim, de cabeça. Algumas vezes as pessoas me perguntavam e eu precisava fazer as contas.

Aí está o grande perigo.

Para nós, dos 39 para os 40, por mais que a matemática possa questionar, se passam 10 anos…

Em nome dos filhos

26/08/2009 por mterenzi

Pais, por favor, quando forem escolher o nome dos seus filhos, optem por nomes simples, daqueles que não será preciso passar a vida inteira soletrando. Seus filhos ganharão vários dias de vida ao evitar este trabalho inútil e cansativo de soletrar, milhares de vezes, o próprio nome. Sem contar as irritações na garganta por ter que aumentar o tom de voz.

O meu nome é simples. Tudo bem, o sobrenome pode causar embaraços. Tereza? Terence? Terensi? Bom, mas sobrenome normalmente a gente não pode escolher mesmo.

Meu grande problema sempre foi o Luis. Meu Luis é assim mesmo, com S. Acho, inclusive, que seria a forma correta, se é que isso existe. Mas de cada 100 pessoas para as quais eu digo meu nome, 101 escrevem com Z. Tanto que, quando informo meu nome verbalmente, eu sempre antecipo e digo:

- Mário Luis com S.

Meu irmão sempre teve o mesmo problema. Ele se chama Luis Fernando. Com S. Mas ele não é tão valente e obstinado como eu. Rendeu-se às evidências e ao cansaço e mudou a identidade para Luiz. Com Z. Agora todo mundo acerta.

Isso me lembra uma história de quando eu ainda era criança e as pessoas perguntavam meu nome. Eu falava “Mário Luis” muito rápido, o que fazia com que muitas achassem que eu me chamasse “Maurício”.

Pacientemente, minha mãe me explicou.

- Você fala Mário, espera um pouquinho, Luis.

Fiquei todo feliz. Na primeira oportunidade em que me perguntaram, essa antinha mirim entrou em ação.

- Como você se chama?

- Mário Espera Um Pouquinho Luis…

Eu e minha ex-esposa seguimos esse conselho que agora dou. Os nomes das nossas duas filhas são muito simples, nada de consoantes duplas, nada de nomes estrangeiros. Gabriela e Isabel. Quando falamos os nomes individualmente, normalmente não ocorre nenhum problema. Mas quando falamos os dois em seguida, acabam escrevendo Gabriela e Isabela. Buscam uma coerência poético-sonora que nunca perseguimos.

Mas, mesmo que seus pais sigam estes conselhos, você nunca estará totalmente à salvo.

Antigamente, eu morava no bairro Gutierrez. E pedir pizza pelo telefone sempre foi a minha única habilidade culinária.

Os diálogos típicos eram mais ou menos assim:

- Eu queria uma pizza tipo a que tem tudo do tamanho hiper mega blaster gigante.

- Pois não. Qual o endereço?

- Rua Oscar Trompowsky, 1006

- Como? Oscar o que?

- T-r-o-m-p-o-w-s-k-y.

- Poxa, que nome difícil. Tem alguma referência?

- Esquina com Marechal Bittencourt.

- Ai, ai, ai…

(…)

Meu avô paterno se chamava Ézio.

Meu pai se chamava Ézio.

Quando eu nasci, adivinha qual nome meu pai queria me dar?

Ézio…

Mas meu avô reclamou, disse que já tinha Ézio demais na família.

Aí eu virei Mário.

Meu pai se chamava Ézio Mário…

(…)

Meu nome verdadeiro é (Ézio) Mário (Espera um Pouquinho) Luis (com S) Terenzi (com Z)…

Muito prazer!

Quanto custa a felicidade?

25/08/2009 por mterenzi

Acabei de concluir um curso sobre um tema pouco usual.  A felicidade. A idéia do curso, realizado através de quatro debates, era discutir de que forma a noção não muito precisa que temos de felicidade poderia estar associada a alguns fatores.

Seria a felicidade a realização de desejos? Seria a busca e obtenção de prazer? A posse de bens materiais nos faz mais feliz? A vida social é mais propícia à felicidade? Com os avanços da ciência, podemos dizer que somos mais felizes hoje do que eram nossos antepassados? A ignorância ajuda ou atrapalha nossa felicidade?

Claro, não existem respostas fáceis. Como todo debate cujo viés é predominantemente filosófico, ficamos com mais perguntas que respostas. Melhores perguntas, pelo menos.

Um aspecto interessante que foi bastante discutido é a possível relação existente entre bens materiais e felicidade. Qual seria a resposta para a famosa pergunta “dinheiro traz felicidade?”.

A partir da compilação de quatro pesquisas diferentes, realizadas em locais e épocas diversas, percebeu-se um quadro curioso. Até um certo ponto, foi possível estabelecer-se claramente uma correlação direta entre dinheiro e felicidade. Porém, a partir deste ponto (que obviamente depende de vários fatores), o acréscimo de dinheiro não se traduzia mais em aumento da felicidade percebida. E esse valor de corte não era nada absurdo, alguma coisa, para os padrões brasileiros, na faixa dos dois mil reais mensais.

Desse valor de corte até cerca de quatro vezes mais (ou seja, uns oito mil reais mensais), o acréscimo de felicidade percebida pelos entrevistados era praticamente desprezível.

Porém, acima dessa faixa, a correlação voltava a acontecer.

A explicação para a primeira correlação parece mais simples. Enquanto a pessoa não consegue satisfazer algumas necessidades básicas (alimentação, moradia, alguma segurança), é difícil dizer-se feliz. Em outras palavras, dinheiro pode não trazer felicidade, mas a falta dele pode trazer infelicidade. Uma vez atingido esse patamar de equilíbrio (cujo valor, obviamente, irá variar de pessoa para pessoa), ganhar mais dinheiro parece ter muito pouco a ver com ter mais felicidade.

Mais difícil, entretanto, é explicar o porquê, a partir de um certo ponto, a correlação entre dinheiro e felicidade volta a se estabelecer. A explicação mais aceita é que, a partir desse ponto superior, esta “felicidade adicional” viria não mais pelo que se poderia adquirir com este dinheiro (uma vez que as coisas mais básicas e mesmo algumas, digamos, supérfluas, já estariam, de longe, satisfeitas), mas sim porque as pessoas à nossa volta passariam a nos considerar especiais. Seria, dizendo de uma forma mais direta, uma felicidade movida pela admiração (inveja?) dos outros.

Interessante, não?

(…)

Mas eu faço outra pergunta.

A gente precisa buscar a felicidade?

A que preço?

Adianta?

A minha felicidade não depende só de mim, existe uma série de fatores que eu não controlo que podem me fazer mais ou menos feliz.

(…)

Eu não busco mais a felicidade. Eu busco a inteireza.

Algo como chegar ao fim de cada dia e me sentir satisfeito com a maneira com que agi. Pelo menos isso depende, basicamente, só de mim mesmo.

É possível ser feliz sem estar inteiro?

Cosmologia

20/08/2009 por mterenzi

Em Cosmologia,  a radiação cósmica de fundo é uma forma de radiação eletromagnética descoberta pelos cientistas em 1965 e que preenche todo o universo. Ela tem o espectro térmico de um corpo negro próximo à menor temperatura possível e é uma das mais fortes evidências observacionais do modelo do Big Bang de criação do universo. A teoria do Big Bang sugere que a radiação cósmica de fundo preenche todo o espaço observável e que ela concentra a maior parte da energia do universo, apesar de constituir apenas uma fração mínima da densidade total do mesmo.

(…)

Eu tenho uma companhia permanente, inseparável.

Incômoda?

Às vezes ela se manifesta como uma vontade de chorar sem razão aparente, às vezes é uma vontade de colo, às vezes é o que me faz sentir mais empatia pelos outros.

Sempre é algo que me faz mais humano.

Na verdade, ela sempre esteve por aí, só que antes eu a negava, eu tentava enganá-la, usava os mais variados truques.

Enganando-a, eu me enganava.

Meus truques não funcionam mais.

E ela continua aí, agora mais explícita.

Aceita?

Dei até um nome para ela. Tristeza cósmica de fundo. É através dela que eu consigo encontrar as origens do meu Big Bang.

Eliot

16/08/2009 por mterenzi

Do grande poeta nascido nos Estados Unidos e naturalizado inglês T. S. Eliot (1888-1965):

“É assim que o mundo acaba, não com uma explosão, mas com um lamento”

Amor Feinho

15/08/2009 por mterenzi

Uma amiga me mostrou um poema, da Adélia Prado. Chama-se Amor Feinho. Vale tanto a pena ser lido, que eu o copiei abaixo.

Eu também quero, tanto, amor feinho.

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Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.

Moderado

15/08/2009 por mterenzi

Vira e mexe eu recebo um questionário enviado pelo meu banco, com diversas questões de múltipla escolha, para que eu responda e o banco possa saber qual é a minha essência última como investidor. Seria eu um investidor conservador, moderado ou agressivo? Essas são as três categorias básicas no sistema ontológico bancário universal de classificação dos seus clientes.

Mais uma vez, a milésima, preenchi. Mais uma vez, a milésima, sou moderado.

Cansei de ser moderado. Nessa última vez, eu até exagerei um pouquinho, forcei a barra, quase menti, mas, apesar de quase ter sido considerado agressivo, continuo condenado à eterna moderação.

Tudo bem, poderia ser pior, eu poderia ser um conservador, um reacionário, um acomodado, um morto.

Tudo bem que a moderação é um valor que sempre se prega, de Aristóteles ao Budismo. O caminho do meio. O meio-termo.

O equilíbrio.

Mas a verdade é que eu sempre quis ser agressivo.

Nunca fiz um piercing e, convenhamos, fazer agora seria ridículo.

Nunca fiz uma tatuagem e, convenhamos, fazer agora seria ridículo.

Nunca usei brincos e, convenhamos, usar agora seria ridículo.

Nunca usei rabo-de-cavalo. Nem cabelos compridos. Eu queria tanto ter cabelos compridos, diversas vezes ao longo da minha vida eu sonhei que tinha cabelos compridos. Era o máximo.

Mas meu cabelo nunca cresceu para baixo, ele só cresce para os lados.

E usar um rabo-de-cavalo agora, convenhamos, seria ridículo.

Meu cabelo é, para minha frustração, apenas moderado…