Sim, fiquei muito tempo sem escrever nesse blog. Muitos me cobraram por isso e me deixaram feliz, porque me senti fazendo alguma coisa que outras pessoas estavam gostando. Mas gostaria de dizer que a minha principal preocupação ao criar esse blog não era a de me tornar famoso ou popular (embora seja muito gostoso receber os comentários dos amigos), mas, acima de tudo, deixar registrada certas memórias, dar materialidade a certas reflexões que, sem esse registro, se perderiam quando eu parasse de funcionar.
Posto isso…
(…)
Estou em Roma. Pela segunda vez na vida. Com uma sensação muito diferente da primeira. Quando estive aqui pela primeira vez, em 2008, batia foto de tudo. Agora, apenas uma sensação de dejavu. Em menos de três horas, caminhando lentamente, fiz todo o percurso obrigatório (Piazza del Popolo, Fontana di Trevi, Piazza di Spagna, Piazza Venezia, Colosseo, Foro Italico, passeio às margens do rio Tevere, lojas na Via Condotti). Recontar isso não acrescentaria nada. Fiquemos com aquelas pequenas coisas da viagem, aquelas que realmente nos marcam.
Vim pela TAP, o que me obrigava a uma parada no aeroporto de Lisboa. Como minha sobrinha Clarissa estava comigo no mesmo vôo (a conexão dela era para Paris, onde ela mora), tive todas as regalias de um acompanhante de uma grávida e ainda com um filho pequeno. Dose dupla. Sempre entrava em primeiro lugar na hora de fazer as coisas. E para acalmar (ou aumentar) a ira dos demais, chamava-a de “benzinho”. Consegui uma acomodação privilegiada no avião, na primeira fila, onde ninguém pode abaixar a cadeira apertando as suas pernas. Dois lugares apenas. E eu no corredor, para facilitar minhas idas ao banheiro.
Para tornar isso tudo ainda melhor, senta-se ao meu lado uma ragazza muito interessante, italiana, sozinha. Tudo perfeito, se não fosse por uma mulher grávida brasileira pedindo que trocássemos de lugar com uma amiga dela, sob o pretexto de que esta amiga a ajudaria a cuidar do seu filhote. Conversa mole de brasileiro. Ela queria mesmo é ir do lado da amiga para conversar. Olhei para minha “amiga” italiana e gentilmente recusamos, em uníssono. Senti-me mais italiano do que nunca. Não poderíamos abrir mão assim tão fácil daquela conquista única…
Conversamos bastante durante a viagem, ora em italiano, ora em português, que ela fala muito bem. Ela estava voltando para a sua cidade natal, Saló (a mesma do filme do Pasolini), para contar para seus pais como uma viagem de férias de um mês no Brasil acabou resultando numa extensão de seis meses e num casamento feito apenas uma semana antes. Ela disse que achou os homens brasileiros muito mais sensíveis e dispostos a um compromisso que os homens italianos. Nessa hora, abro mão da minha cidadania italiana. Eu, sou brasileirô, com muito orgulhô, com muito amôr…
Despedimo-nos no aeroporto de Lisboa, quando fui ajudar minha sobrinha com a sua conexão para Paris, carregando malas, filhos, barriga e tudo mais. Chegamos em cima da hora, mas ela conseguiu embarcar. Meu benzinho se foi e voltei a ser uma pessoa normal, sem nenhum direito especial.
Depois, calmamente, esperei pelo meu vôo para Roma, que estava lotado de adolescentes italianos. Na chegada, procurei por alguém com uma placa com meu nome, para me levar ao hotel, pois fazia parte do pacote. Achei o motorista, que esperava apenas por mim. E estranhei que ele não tinha um braço, o direito, de forma que fiquei sem saber como cumprimentá-lo direito. Fomos para o carro e seguimos adiante. O carro era automático, de forma que o braço faltante realmente não era essencial. Mas fiquei pensando se a legislação italiana, dentro de todo este processo de inclusão, permitiria realmente isso. Mas chegamos bem ao hotel, após uma hora de percurso e alguma conversa sobre o tempo e o tráfego em Roma. Nos despedimos com ele me oferecendo a mão esquerda.
Roma estava um pouco chuvosa e a temperatura na casa dos 12 graus. Cinzenta.
Meu italiano está quase bom. Consigo manter uma conversação com os atendentes em geral por algum tempo, até que, de repente, devo falar alguma bobagem e eles automaticamente mudam para o inglês ou para o espanhol. No restaurante, mais à noite, animado por duas taças de vinho, fiz um longo discurso em italiano para o cameriere pedindo que ele sempre falasse italiano comigo, doa a quem doesse. Ficamos amigos. Ele ganhou uma boa gorjeta ao final (que, na Itália, diga-se de passagem, não é obrigatória e é muito bem vinda).
Enquanto jantava nesse dia, observava na mesa ao lado um casal de espanhóis, jovens e bonitos, onde ambos estavam com a cara amarrada e falavam secamente um com o outro. Depois do vinho, cheguei a pensar em intervir. Em dizer que eles estavam em Roma, que eles deveriam curtir aquele momento, que poderiam deixar a briga para depois, se fosse estritamente necessária (nunca é, na verdade), e que aproveitassem aquele momento. Que degustassem aquela refeição maravilhosa, que tomassem aquele vinho inebriante e que fossem, em seguida, para o quarto, para celebrar o seu amor. Mas eu não sei fazer discursos em espanhol e fiquei calado. Mas creio que a moça espanhola percebeu a minha aflição, de forma que, quando eles foram embora, assim sem mais nem menos, ela se dirigiu a mim e me deu um “ciao” carregado de sotaque, para surpresa do namorado/noivo/marido. Não deve ter ajudado nada na discussão entre os dois…
Veja só. Logo eu, que não consigo sequer resolver a minha própria questão amorosa, querendo dar palpite na relação dos outros. Acho que é porque hoje eu valorizo estas coisas, sei como é difícil construir-se uma relação amorosa de verdade e como é bobagem discutir por coisas pequenas. Eu já fui parte de muitos casais espanhóis na minha vida.
Amanhã, domingo, acordo bem cedinho para começar meu passeio pela Costiera (Costa) Amalfitana. Pequenas cidades incrustadas nas pedras que descem em direção ao mar mediterrâneo. Passeio perfeito para se fazer a dois. E eu, por absoluta falta de quorum, estarei lá, ao entardecer, tomando um bom vinho italiano, vendo o por-do-sol e as águas do mediterrâneo e falando sozinho. Ou com o garçom. Ou com algum casal briguento do lado, se eu ao menos puder me comunicar na sua língua, dizendo para eles pararem de desperdiçar a vida com estas briguinhas de namoro sem sentido. Claro, se tomar pelo menos duas taças de vinho antes…
Ci vediamo…
25/04/2010 às 3:28 PM |
Ei Mário,
Adorei esta ideia de relatar os acontecimentos da sua viagem no blog! Depois acho que vou fazer um blog pra mim também pra relembrar minhas viagens passadas e registrar as novas, senão as memórias acabam se perdendo mesmo….
Aqui, aquele negocio dos atendentes de hotel ou restaurantes começarem a falar inglês ou espanhol com vc depois de alguma “pisada na bola” no italiano, também já aconteceu comigo. Mas acho que não é só uma questão da gente cometer alguma mancada no italiano. Acredito que é o habito mesmo, este pessoal ligado a turismo tá muito acostumado a falar inglês ou espanhol com os estrangeiros.Sem perceberem eles já passam a falar nestas linguas.Agora na rua quando em conversava com gente normal( não ligada ao turismo), isto nunca aconteceu. Ainda que eu desse uma derrapada no italiano, eles sempre continuavam falando italiano comigo….
Nas duas vezes em que fui à Italia( acho que principalmente na primeira) meu italiano estava bem “enferrujado”, tipo já fazia um bom tempo que eu não praticava e já tinha esquecido bastante coisa… Percebi, porém, que rapidinho com o contato diário com a lingua, eu ia ganhando fluência, relembrando vocabulário e estruturas gramaticais….
Oh, Beijão procê!!! Come uma pizza aí em minha homenagem…. rs rs rs
25/04/2010 às 6:33 PM |
Eu, coincidentemente, tive uma experiência de quase falar italiano hoje! Fomos almoçar eu, mamãe, Bel e Iago na Osteria degli Angeli e o dono estava lá e falava com um sotaque indubitavlemente italiano. Toda hora que ele ia à nossa mesa, eu ensaiava falar alguma ‘parola’, mas dava pra trás.
Quando finalmente resolvi falar direito, na hora de pedir ‘il conto, per favore’, ele estava em uma conversa em uma outra mesa e, como estava demorando muito e todo mundo queria ir embora cochilar, acabamos pedindo para um garçom brasileiro e fomos embora… :\
Rá! Falei que era pra vc aproveitar as regalias da Cla, você finalmente me ouviu então…
Beijos!
25/04/2010 às 11:58 PM |
Olá, Mário!
Tudo bem?
Lendo suas palavras, me imaginei novamente em Roma. Que cidade indescritível! Considero a Europa um continente mágico! Sabe? Tenho verdadeira loucura por conhecer o Reino Unido. Acho que devo ter uns cinco guias diferentes. Acredito que terei de visitá-lo sozinha!!! Depois você me passa algumas “dicas”?
Estou curiosa pelos próximos capítulos!!!
Aproveite bastante!!!
Beijos, Lília.
21/05/2010 às 3:06 AM |
Mario parou de escrever suas crônicas multimundo? Estava esperando ler outra hoje . Um grande abraço
22/11/2010 às 5:51 AM |
Todas as vezes que dei mancada no italiano lá em Milão o pessoal riu mesmo na minha cara. Uma vergonha…