Barbeiro

Estava aqui pensando que a grande relação de fidelidade que nós homens mantemos na vida é com o nosso barbeiro. As mulheres que nos perdoem.

No meu caso, já faz uns 20 anos que, uma vez por mês, todos os meses, eu chego lá, trocamos uns olhares e nenhuma palavra, ele me leva até uma salinha, lava meu cabelo com água fria (na primeira vez que fui, disse que preferia água fria), me leva para a cadeira, me veste com aquele aventalzinho protetor de cabelos e me oferece a revista Playboy do mês. Claro, sempre aceito, apenas o que eu economizo na assinatura da revista já paga boa parte do corte do cabelo em si, que atualmente está saindo por 22 reais, que eu arredondo para 25.

(Talvez fosse mais justo o preço ser proporcional ao tamanho do cabelo, o que me beneficiaria, mas jamais entramos nessa discussão, até mesmo porque jamais entramos em qualquer discussão ou conversa)

O corte demora em média uns 25 minutos, tempo mais do que suficiente para ler a Playboy duas ou três vezes. Graças a ela, eu, que nunca assisti, conheço todas as participantes interessantes do BBB. Mas sempre que vejo aquelas fotos artísticas do meio da revista, aquelas de página dupla, sinto uma certa nostalgia pela Cláudia Ohana, nosso ícone maior. E mais farto… 

Aliás, aquela página central da Playboy não deixa espaço para dúvidas. Enquanto você está folheando a revista da forma natural, pode até tentar enganar alguém dizendo que a entrevista é muito boa, que está procurando dicas para se vestir melhor ou que as piadinhas da última página são muito divertidas. Mas quando você abre aquela página central para ver melhor a beldade escolhida do mês, todas as dúvidas se dissipam. É, eu sou apenas um homem, como os outros, algo que, num salão de barbeiros (não cabeleireiros, mas barbeiros mesmo) jamais seria objeto de qualquer crítica ou mesmo de um simples olhar reprovador.

Confesso que sinto um certo incômodo quando, ao folhear as partes mais picantes da revista, dou de cara com restos mortais de cabelos de outros homens que passaram por ali antes. No local onde eles estão, parecem menos cabelos e mais outras coisas. Mas sigo em frente, meu tempo é curto e sempre tem alguma beldade polonesa ou russa me esperando algumas páginas adiante.

Para falar a verdade, até algum tempo atrás, eu realmente lia algumas reportagens. As piadinhas com certeza. Mas depois que a idade começou a chegar e os óculos para se ler de perto tornaram-se imprescindíveis, as coisas ficaram mais difíceis. Meu barbeiro também está envelhecendo (mas jamais perguntarei a sua idade ou qualquer outra coisa para ele) e tenho medo que com a perna do óculos passando pelas minhas orelhas ele possa cometer alguma imprudência. Ele também começou a usar óculos faz algum tempo.

Tenho certeza que meu barbeiro não sabe o meu nome. Seria capaz de me reconhecer a cem metros de distância, mas não sabe o meu nome. E eu somente sei o nome dele (Brás), porque ele me deu um cartão uma certa vez, de forma que eu pudesse ligar antes para saber se ele estaria lá, antes que eu me deslocasse. Deu o cartão e não disse palavra. Eu acenei com os olhos e fiquei mudo. Uma relação constante de mais de 20 anos. Sem palavras.

(…)

Uma única vez eu cheguei no salão e não o vi por lá. Nem precisei perguntar, os seus colegas sabiam que eu “era dele”. Disseram-me que a esposa dele estava doente e que ele não viria trabalhar naquela semana. Saí do salão pensativo. Pensei em voltar e cortar o cabelo com algum outro. Mas achei que seria uma falta total de respeito, ainda mais com uma situação de doença na família. Além disso, poderia acontecer dos próprios amigos se recusarem a participar nesse episódio de traição capilar. Recuei. Se fosse para traí-lo, que fosse num outro salão, de preferência do outro lado da cidade. Melhor ainda, em outra cidade. Sei lá se os barbeiros participam de festinhas de confraternização entre si…

Mas aí me lembrei, felizmente a tempo, de algo mais importante. Se eu cortasse o cabelo em outro lugar, ele fatalmente descobriria no meu retorno seguinte, pois saberia que meu cabelo não poderia ter ficado em dois meses daquele tamanhozinho.

Descobri que só se trai um barbeiro uma única vez. Se eu caísse na tentação de ir a outro lugar, seria para sempre. Não haveria retorno. Nossa relação de mais de 20 anos estaria terminada, sem despedidas, sem nada. Sem nenhuma palavra, como sempre foi. E, dependendo do novo barbeiro, sem Playboy também…

Voltei para casa. Qual o problema de esperar mais alguns dias?

Na semana seguinte, lá estava eu, com o cabelo um pouquinho mais comprido que o normal. Acho que percebi um discreto sorriso nos lábios do Brás. Mas ele não disse nada. Colocou meu cabelo na água (fria), secou, me vestiu o aventalzinho e começou o trabalho.

E, claro, me deu a Playboy do mês…

8 Respostas para “Barbeiro”

  1. gleison verçosa Disse:

    Parabéns Mário,

    (c’è sempre un Mario…)

    ótimos textos (como sempre);

    dá uma olhada no meu blog tmb http://vercosadocontra.blogspot.com/

  2. André Disse:

    Pois eu tive que trocar de barbeiro. Depois de 67 anos de tesoura (mais de 20 comigo) e um derrame em cada olho, o Pinheiro aposentou. E faleceu pouco tempo depois. Agora (já faz uns 5 anos) é o Jaílson. Como ele é mais novo que eu, com sorte, não terei que trocar de barbeiro de novo. Que no meu caso é barbeiro mesmo, pois também faz a minha barba.

  3. Letícia Disse:

    Sem comentários!!! Eu estou passando mal de tanto rir!!!!!!

  4. renata roman Disse:

    Espetacular.

  5. Letânia Disse:

    *rs*
    É um cronista ou não é?
    Adóóóóuro…
    Beijo!

  6. Idênia Disse:

    Estou começando a ler seu blog e estou adorando suas crônicas.
    Parabéns!

  7. Cecília Gabrielan Disse:

    Capilar, meu caro!

    Fiquei pensando no seu sonho secreto de ter cabelos grandes… todos os meses você não só corta as madeixas, mas também apara seu sonho juvenil.

  8. Rosilene Disse:

    Será que relacionamento entre homem e mulher ficaria mais fácil se a mulher fôsse muda?

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